Direto de PIEI
   Feliz 2007

Pois é, depois de fechar pra balanço em férias prolongadas, o diretodepiei volta com força total. Nesse ano já começamos bem com um artigo do Gilson Alves,  amigão meu e o cara mais ponta firme do Brasil, principalmente quando se fala de Meio Ambiente, rock alemão e tricolor carioca. A leitura diz muito a respeito do que tem acontecido no Brasil. Ao tratar o ambiente como um entrave econômico, o País vai perdendo fontes de riqueza e - o pior - parece não ganhar nada que valha tanta a pena em troco. É preciso ficar atento, mais do que nunca.

Feliz ano novo e vamo que vamo.


Escrito por Lauro Mesquita às 13h19
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   Nova legislação pode prejudicar ainda mais a Mata Atlântica

por Gilson Alves


OlhaFoi sancionada no dia 22 de dezembro de 2006 a Lei da Mata Atlântica. Ainda que se constitua em um avanço em algumas matérias, se considerada a situação anterior (quando este bioma era regido pelo Decreto 750/93), me parece que o saldo é negativo. Pelo menos é o que nos parece tomando por base a região sudeste.... O novo dispositivo legal ampliou as possibilidades de supressão de vegetação, notadamente nas florestas situadas em áreas urbanas (que são indispensáveis à qualidade de vida nas cidades) e nas pequenas propriedades rurais. Nesta última, as novas possibilidades podem se transformar em grandes vetores de desmatamento, notadamente no sul e sudoeste de Minas Gerais, região serrana do Rio de Janeiro e interior paulista. Os assentimentos serão possíveis em áreas com estágio médio de regeneração (o estágio 2 numa escala de 3). Anteriormente à Lei não existiam tais possibilidades de supressão de floresta.

O debate sobre o impacto da nova lei está ainda morno, dadas as circunstâncias de sua aprovação (fim de ano e legislatura, férias de muita gente etc.), mas me parece que algumas correções deverão ser pleiteadas com o andar da carruagem. O problema, é que a Mata Atlântica possui altíssima importância biológica (ainda é uma das florestas de maior biodiversidade do mundo), mas encontra-se em estágio avançado de devastação. Estatísticas oficiais dão conta que restam apenas 7% das áreas originais.

Pior, os remanescentes estão significativamente isolados, o que contribui para o aumento da taxa de extinção de espécies, que acabam se degradando por consangüinidade nesta situação. Por isso, permitir o avanço de atividades econômicas sobre a floresta é algo que opinamos ser impensável. Ressalta-se que a legislação prevê (como se deve) que algumas intervenções devem ocorrer como: instalação e manutenção de infra-estrutura de transporte, energia, saneamento básico e outras. Mas o sentido da nova lei deveria ser a conservação da floresta e não a sua “utilização”, como consta no título do seu título. Dispositivos como a possibilidade de criação de áreas de alta relevância, zoneamento, estabelecimento de estratégias que buscassem a redução do isolamento dos fragmentos etc., ficaram de fora desta regulamentação.

Um terceiro dispositivo contestável criado pela Lei trata das compensações para o desmatamento de áreas em estágio avançado de regeneração (escala 3 de 3) ou florestas primárias (nunca desmatadas). Como se percebe, tais florestas são as mais importantes pois ou nunca foram desmatadas, ou estão há muito tempo sem perturbações. Estas situações são mais propícias para a conservação de espécies raras e daquelas com maiores exigências quanto à qualidade ambiental. Sua constituição data, como decorre de sua definição, de tempos imemoriais ou, no mínimo, dezenas de décadas. A supressão destas florestas, quando necessário acarreta em um impacto de alto grau, que não pode ser compensado simplesmente. No art. 17 da Lei criou-se uma compensação desta forma:

“ficam condicionados à compensação ambiental, na forma da destinação de área equivalente à extensão da área desmatada, com as mesmas características ecológicas”.

Ora, uma área dessas já está protegida pela mesma legislação por se tratar de floresta em estágio avançado de regeneração ou vegetação primária. A única explicação para este dispositivo é mágica, não consigo ver de outra maneira. No mesmo artigo ainda fica assinalado:

“Verificada pelo órgão ambiental a impossibilidade da compensação ambiental prevista no caput deste artigo, será exigida a reposição florestal, com espécies nativas, em área equivalente à desmatada”


Como acima assinalado, um plantio desses levaria dezenas de décadas (pra mais de 7 ou 8 até 15) para ter a mesma relevância de uma floresta primária ou em estágio avançado, correndo grande risco de nunca atingir importância semelhante. Neste caso, estaríamos trocando diamantes por laranjas. O grande problema do artigo é que ele torna simples realizar desmatamentos pois todo mundo teria uma área de pastagem ou de pouca aptidão agrícula para ser “trocada” na base do 1:1 por uma floresta de boa qualidade, porém situada numa porção mais fértil ou valorizada de seu terreno. Esta situação é comum nas áreas de especulação fundiária em refúgios florestais, seja no litoral ou em regiões serranas. Normalmente neste caso os órgãos ambientais exigiam uma compensação mais pesada, de acordo com o impacto da ação; a nova lei suprimiu esta possibilidade.

Não se deve imaginar por isso que o texto é ruim, a criação de um fundo para apoiar iniciativas de conservação é uma boa ferramenta de gestão que foi introduzida por esta Lei. Os incentivos para a conservação aumentam com este dispositivo, o que pode implicar em ampliação das áreas florestadas. Outra boa notícia é a padronização das definições, campo que propiciava as mais absurdas interpretações, com conseqüências negativas para a conservação ambiental. Há ainda a manutenção de grande parte do espírito do Decreto 750/93. Atentamos apenas que existem pontos que podem e devem ser melhorados neste texto que, agora, está valendo.



Escrito por Lauro Mesquita às 13h12
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   Congotronics no Brasil



O Konono Nr 1 vem pra São Paulo a convite da Bienal. Acho que vai ser demais. Não dá pra perder. Olha as datas aqui embaixo.

SHOWS DO KONONO Nº1
QUANDO:
6/12, às 18h, e 07 dezembro, às 12h
ONDE: Boulevard São João, Av. São João S/N - Centro de São Paulo. Informações, tel.:(11) 3111-7000
QUANTO:
Grátis

QUANDO: 8 e 9/12, às 20h30
ONDE: Auditório Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 2 do Parque do Ibirapuera. Informações, tel.: (11) 5908 - 4299
QUANTO:
R$ 30 e R$ 15 (meia entrada)


Escrito por Lauro Mesquita às 14h38
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   Look out the soul is back!

Bem amigos do diretodepiei, nosso colaborador Fabiano Scodeler* decidiu sair do seu retiro espiritual para nos brindar com mais um de seus textos. Dessa vez o tema é o filme Cinemas Aspirinas e Urubus. A análise, como sempre, é preciosa e vale demais ser lida. Aproveitem.



Escrito por Lauro Mesquita às 15h33
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   Cinema, Aspirinas e Urubus em ítens

por Fabiano Scodeler


OlhaO penúltimo filme brasileiro que tinha assitido e achado de grande relevância foi O Invasor de Beto Brant, mas Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, me surpreendeu positivamente em muitos aspectos, é o melhor filme brasileiro que vi na última década. O filme é o indicado brasileiro para concorrer ao Oscar desse ano, o que demonstra uma melhora não só do nosso cinema, mas também dos órgãos responsáveis pela escolha dos  filmes. 

A trama se passa no sertão nordestino no ano de 1942, o diretor não deve ter tido muito trabalho com a escolha dos cenários, visto que a vida sertaneja não teve muitos melhoramentos de lá para cá. Trata-se de um road movie em que Johann, um alemão representante comercial da Bayer, anda meio sem destino, procurando compradores para as aspirinas que leva numa caminhonete e acaba encontrando e dando emprego para Ranulpho, um retirante da seca que tem a pretensão de deixar aquela vida e ir tentar a sorte no Rio de Janeiro.

Fugindo da fórmula fácil que seria explorar a diversidade cultural das personagens, o filme explora muito mais o que elas têm em comum. As diferenças entre elas, apesar de existir, é obrigada a ficar em segundo plano devido às condições climáticas do sertão e da dependência mútua que vai se instalando entre elas: uma foge da II Grande Guerra e tem mercadorias para serem vendidas, a outra foge da seca, quer chegar ao Rio de Janeiro para conseguir trabalho e tem intimidade com o espaço físico e o modo de ser das pessoas dos lugarejos em que estão de passagem.

O filme agrada justamente por fugir o tempo inteiro dos clichês e realiza esse fato frustrando, no bom sentido, as espectativas de quem o vê em relação a essa possibilidade. Johann, que numa das primeira cenas aparece dando carona a um morador local e deixando-o a pé quando este pára para caçar um animal que estava no caminho, está longe de ser o alemão frio e fechado que tendemos a imaginar num primeiro momento.

Outra fórmula fácil que o filme poderia ter utilizado é a do road movie que explora as paisagens de onde se vai passando. Não que a paisagem árida do sertão não se prestasse a esse papel, muito pelo contrário, mas Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme focado nas vivências, em dois destinos que se cruzam.  Marcelo Gomes o define da seguinte forma: “É um filme sobre pessoas que querem descobrir um caminho melhor para as suas vidas. São personagens que, apesar de contingências políticas e sociais adversas, precisam buscar o seu próprio mundo. Neste momento, você não tem mais o nordestino fugindo da seca ou o alemão da guerra, mas dois seres humanos. Isso faz com que o europeu e o nordestino estejam no mesmo patamar. Isso fez do filme universal, e garante a sua compreensão”.

A relação do comerciante com Ranulpho, portanto, é o que há de mais importante no filme e, embora não seja de muitas palavras, também não é apenas uma relação entre empregador e empregado. Há alguns momentos em que parece que se vai instaurar um conflito entre eles devido às suas diferenças, mas, à medida que vão se conhecendo, passam por uma troca de experiências que não é a do embate. Esse possível conflito que vai se ensaiando, realiza-se de forma magistral no trecho que, para mim, é o mais marcante do filme. Nesta passagem os dois estão bêbados e começam a encenar como seria se eles se encontrassem em lados opostos de uma guerra, é um dos poucos momentos da história em que o silêncio dá lugar definitivamente às palavras e um começa a falar o que realmente pensa do outro. Os dois travam uma longa discussão e uma luta imaginária de muitos tiros que só se finda com o suicídio imaginário dos dois.

Ao que afirma o ator João Miguel, responsável por encenar Ranulpho,  essa cena foi construída no calor do momento e é fruto da liberdade de criação que o diretor deu aos atores, mais um ponto positivo do filme: “Na cena da bebedeira, a estrutura toda daquele diálogo, a gente criou na hora - mas a partir de um ensaio, de como assentar a atmosfera naquele momento. O lugar é vivo. O acaso é proposital, é deixar o tempo do local impregnar a nossa ação. E o jeito que a gente dialoga com isso também é imprevisível” .



Escrito por Lauro Mesquita às 15h22
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Cinema e Aspirinas

OlhaUm dos atrativos que o comerciante alemão utiliza para chamar a atenção dos seus fregueses  é a exibição de alguns filmes. Sua caminhonete, dentre outras coisas, está equipada com um cine mambembe que exibe belas imagens do Centro-Sul do país, intercaladas com propagandas do remédio por ele vendido. Longe de ser parte acessória da trama, os filmes exibidos por Johann aos nordestinos cumprem importante função em Cinema, Aspirinas e Urubus.

É interessante observar a imagem que vai sendo construída do Sul do Brasil nesses filmes publicitários. Essa região é quase um paraíso aos olhos dos espectadores sertanejos; nas cenas vêem-se lugares com muita água, onde o trabalho e a prosperidade são fartos e estão ao alcance de todas as pessoas. Somado a isso, a trilha sonora do filme é ouvida a partir de um rádio que o alemão tem no carro e toca basicamente músicas e informações veiculadas pela Rádio Nacional na época. As canções e as notícias passadas pelo Repórter Esso localizam historicamente a trama e têm quase sempre uma conotação ufanista, que também pode ser observada na foto de Getúlio Vargas emoldurada na parede da casa de um dos moradores que as personagens visitam.

Em destaque na caminhonete em que viajam, pode-se ler o slogan do medicamento na época : “Aspirina, o fim de todos os males”, idéia que reforça e é reforçada pela imagem que os filmes exibidos querem passar do país. Numa das propagandas do remédio projetadas pelo alemão, uma moça muito bem vestida- e que se faz questão de mostrar que está bem empregada em São Paulo- tem uma dor de cabeça, que é aparentemente seu único problema, a qual é prontamente resolvida quando ela toma a pílula milagrosa vendida pelo comerciante.

Diferente das imagens exibidas pelo cine mambembe é a vivência das personagens principais. Uma passagem vivenciada por elas vem a desmentir a propriedade miraculosa do remédio. As personagens, comemorando um negócio que seria excelente para elas, passam a noite se divertindo em um bordel e acordam de manhã com o sol rachando e numa ressaca sem tamanho; neste e em outros momentos a luz do filme se faz tão clara que incomoda e pouco se pode enxergar, ressaltando o clima hostil do sertão nordestino. Nesta cena, Ranulpho reclama com Joahann da sua dor de cabeça e o comerciante sugere que ele tome algumas das pílulas, o retirante responde que já tomou várias e que não surtiu nenhum efeito. Cabe aqui observar como a trama vivida pelos dois realiza um movimento de negar o que está sendo mostrado no pequeno cine para os sertanejos. Se o cine mambembe fala de um país que dá certo, quase perfeito, e de uma droga que resolve todos os problemas, a mazela social e as ações das personagens principais retratadas pelo filme de Marcelo Gomes desmentem essa ilusão.

Urubus

A função desempenhada pelo cinema e pelas aspirinas é bem delineada no decorrer do filme, fica-nos a pergunta: mas e os urubus? Ao que me parece, os urubus representam  a frustração de uma outra falsa espectativa, a de que tudo pode acabar dando certo para as personagens. Desde o encontro do sertanejo com o alemão, passando por uma picada de cobra que o gringo toma e é salvo por Ranulpho, chegando à festa no bordel e, enfim, a um fechamento de um negócio da China com um empresário local, o desenvolvimento do filme vai sugerindo uma superação contínua das dificuldades que os dois vão encontrando. Tudo vai muito bem até que Johann ao receber um telegrama, é questionado por um funcionário do correio sobre sua nacionalidade e, em seguida, escuta no seu rádio a notícia de que o Brasil, motivado por supostos ataques navais alemães na sua costa, declara guerra ao III Reich. Além disso, o presidente Getúlio Vargas assina uma lei que dá duas possibilidades para os cidadãos alemães no Brasil: voltar para sua terra natal ou viver em campos de concentração no interior de São Paulo.

Aqui, o passado que o comerciante alemão tanto quis deixar para trás quando fugiu da guerra, torna-se cada vez mais presente e pesado na sua vida. Se por um lado há um clima histórico de ufanismo e identificação nacional envolvendo os progressos que estavam chegando ao Brasil, inclusive a aparição da aspirina, por outro haverá um processo pessoal de progressiva perda de identidade pelo alemão. Fadado a voltar para seu país ou a viver em campos de concentração no Brasil, Johann terá de esconder suas origens e conviver com a paranóia de ser reconhecido por sua nacionalidade. Em outras palavras, a realidade histórica se coloca como uma pedra no meio do seu caminho e ele tem de abandonar o pouco que tinha e acaba partindo em um trem com retirantes para tentar a vida com os seringueiros da Amazônia, lugar em que seria mais difícil de ser encontrado. Como os planos de Ranulpho são outros, há aqui uma separação de seus destinos, o que significa também o fim do filme.



Escrito por Lauro Mesquita às 15h15
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O interessante é que a primeira e a última cena do filme são bem parecidas, mudando apenas as personagens. Na primeira cena, a luz clara não nos permite enxergar a estrada em que o alemão está dirigindo, permitindo-nos apenas ver sua imagem no retrovisor da caminhonete. O diretor explica a cena da seguinte maneira: “Eu imaginei que esse alemão, vindo de um clima temperado, chegando no sertão pela primeira vez, vai ter esse problema de fotofobia, vai ver o sertão superexposto. Mas você tem o sertanejo que está fugindo da miséria, do sertão que é quente, árido e seco, ele só consegue ver isso. Então é a visão desses dois personagens que impregna a paisagem. E é essa luz branca que passamos três meses no laboratório pesquisando. Foi uma longa pesquisa até chegar a ela”. Se essa cena quer mostrar a primeira impressão que está tendo o alemão do sertão, a última cena é também bastante significativa. Tendo de abandonar a sua caminhonete e fugir do sertão nordestino, Johann passa as chaves de seu carro para Ranulpho, a quem ensinou a dirigir. O retirante depois de ver o alemão indo embora de trem, vai para o local em que a caminhonete se encontra e a primeira cena se repete tendo-o como protagonista. A mesma luminosidade é repetida, talvez para indicar que a vida segue e que agora é a vez de Ranulpho se deparar com o novo fora do sertão.

Questionado pelo site http://www.omelete.com.br sobre o que seriam os urubus do seu filme, o diretor Marcelo Gomes dá a seguinte resposta: “Primeiro, eles representam muito aquela região, a miséria, a fome, a pobreza. É o urubu comendo a carniça daquele mundo. Naquele momento do filme o urubu representa as mazelas que pairam sobre as nossas vidas, sejam das pessoas que estão indo de trem pra Amazônia ou de trem para o campo de concentração. O urubu são os generais, são a guerra”. Pode-se dizer, portanto, que os urubus são a contraposição da imagem perfeita criada pelo cinema e pelas propagandas da aspirina.

A riqueza de significados que os urubus trazem para o filme também pode ser percebida na dupla relação que as personagens principais tem com essa representação. Se os urubus, dentre outras coisas, são os generais, os militares, uma das cenas finais é muito representativa. Nela aparece um militar esculhambando e tentando colocar ordem nos retirantes que pegariam o trem para a Amazônia e lá seriam os chamados “Soldados da Borracha”. O militar trata os sertanejos como animais e Ranulpho comenta com Johann que não gosta de gente desse tipo. A resposta do alemão é bastante interessante, ele lembra Ranulpho que em muitos momentos da sua viagem, ele tratou as pessoas com o mesmo desprezo que o militar estava tratando aquela gente, ao que o nordestino se defende: “ Fui ensinado a ser desse jeito”. Ranulpho dessa forma se coloca nas duas posições, tanto é a vítima de um militar que o trata sem nenhum respeito como mantenedor daquela forma de tratar as pessoas.

Algo semelhante se dá com o comerciante. Se por um lado ele vai se refugiar e viajar no mesmo trem que leva os retirantes para a Amazônia, por outro ele explorou em diversos momentos a humildade e a falta de perspectiva daquele povo, vendendo a falsa imagem de um lugar perfeito e de um medicamento que acabaria com todos os seus males. Se os urubus representam a mazela e a exploração do homem pelo homem, as duas personagens não conseguem abster de atuar nessas duas polaridades, seja por capricho, má educação ou necessidade de sobrevivência.

Esses e outros motivos tornam Cinema, Aspirinas e Urubus um filme bastante atual e que merece a atenção de quem se interessa por artes e pelos problemas enfrentados pelo ser humano no século XXI.

*Além de ser um dos meus grandes amigos e um dos caras mais gente-fina que qualquer um pode encontrar na vida, Fabiano Scodeler Pereira - o Zóio - é estudioso de literatura e música brasileira e fanático pelo Inter de Porto Alegre (mesmo sendo de Piei, como eu).



Escrito por Lauro Mesquita às 15h10
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   Já sei um nome: Partido dos Janotas

OlhaAcabadas as eleições e o mercado de especulações ferve mais que panela de siderúrgica. Todo mundo querendo puxar sardinha para o próprio prato. Uma das mais engraçadas foi lançada pelo ator Carlos Vereza no programa do Jô Soares e parece ter sido comprada pela grande mídia: a de que o verdadeiro nome na esquerda brasileira seria o ex-prefeito e agora governador de São Paulo José Serra.


Esse “medalhão da esquerda moderna” estaria agora disposto a formar um novo partido com membros do PPS (a quinta coluna do PFL), do PP gaúcho (???), de partidecos como PV, PHS, PMN e insatisfeitos do PSDB, PMDB e até mesmo do PT. A tônica da agremiação seria a de um “nacionalismo moderno”. Devo andar meio desinformado, mas para mim, construir rampas antimendigos e trabalhar em uma clara política contra gays é bem diferente do que se caracteriza como esquerda moderna. Mas vamos lá. Pensemos de onde saiu essa conversa mole.


É engraçado, mas a história começou a aparecer já na época da escolha tucana sobre qual seria o candidato à presidência pelo partido. Embalados pelo plebiscito das armas e por uma pesquisa de jornal pela qual a maior parte dos brasileiros se dizia de direita, Alckmin usou esse argumento para mostrar que seria um candidato com maior potencial de crescimento.


Ao final do primeiro turno, chegou até se levantar a hipótese de uma “onda de direita” (Veja aqui também). Que seria explicada  pelo crescimento do candidato “da direita da direita” no Brasil  e da vitória do Alan Garcia, no Peru, do PAN  no México e de Álvaro Uribe, na Colômbia – o Alckmin que deu certo.


Com o resultado contabilizado nas urnas eletrônicas, o papo deu água e o segundo turno da eleição foi marcado pela discussão de quem seria mais capaz de trabalhar em favor das classes mais pobres ¬ os grandes eleitores de 2006. A moral e os bons costumes dos que exigiam o tal Brasil decente ficou no discurso no Baixo Leblon e em Higienópolis e com “ex-petistas decepcionados” (não sei como o PT perdeu tantas eleições no passado, tamanha é a quantidade de ex-petistas – deve ser por isso que o Zé Dirceu decidiu se dedicar a outra base eleitoral, os ex-petistas não funcionavam muito na urna, pelo jeito).



Escrito por Lauro Mesquita às 16h25
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Urnas apuradas, discurso inalterado


A princípio a direitona continuou desesperada escrevendo artigos que comparam o “voto de qualidade do Brasil moderno” com a “opção irrefletida dos grotões”. Para essas pessoas, os eleitores mais pobres haviam votado por causa de uma esmolinha que o Lulinha Paz e Amor entregava mensalmente a eles. Para se ter uma idéia, o sociólogo gagá Hélio Jaguaribe escreveu nos últimos dias que os brasileiros mais pobres eram “incapazes de um entendimento mínimo dos problemas nacionais, ficando a atenção desses brasileiros voltada, exclusivamente, a questões atinentes à imediata sobrevivência”.


Alguns dias de descanso do grupo oposicionista deve ter feito eles meditarem que a desqualificação de dois terços do eleitorado pode até dar certo no restaurante francês da Zona Oeste ou em um cabeleireiro no Morumbi, mas não é a melhor estratégia de se vencer um pleito. Afinal se nos determos aos dados aprenderemos que a eleição de Lula vai muito mais longe do que os bem-sucedidos programas sociais.


O Amazonas, por exemplo, deu 86% dos votos a Lula por causa da explosão de crescimento na Zona Franca.  Em 2005, a região teve o melhor desempenho de sua história, registrando um crescimento de 35,83% em relação ao ano anterior e superando em muito as projeções iniciais de US$ 16 bilhões. As exportações foram 86,30% a mais do que em 2004, chegando a US$ 2,02 bilhões, e o número de empregos superou a marca dos 100 mil postos de trabalho.  Ou seja, votaram em Lula pelos resultados que sua gestão apresentou no Estado e não por questão de desespero e primeira necessidade.


Lula ganhou em Minas Gerais com 3, 2 milhões de votos a mais do que Geraldo Alckmin (65% a 35%). Ganhou no Rio de Janeiro com 3,1 milhões de votos a mais do que Alckmin (70% a 30%).  Lula ganhou em Goiás (55% a 45%) e quase empatou no Paraná (49% a 51%) e em São Paulo (48% a 52%). Todos Estados “marcados pela necessidade de assistencialismo e com parcas atividades econômicas”.


É claro que o leitor tucano pode me questionar sobre a votação maciça do Nordeste. A região concentra o maior número de assistidos pelos programas sociais do governo, assim como os maiores bolsões de pobreza do País. Sem coincidência alguma, lá, o presidente teve a maciça votação de 77% . Pode-se falar o que for, mas nessas localidades o programa de implantação de cisternas, o “Luz para todos” e o Bolsa Família tiveram efeitos que só agora recebem atenção devida da oposição.


O primeiro é a libertação dos eleitores para os mandonismos locais. É óbvio que a prática do clientelismo eleitoral continua em voga não só no semi-árido mas em todas as localidades brasileiras, mas sem dúvida a institucionalidade do Bolsa Família libertou boa parte da população dos desmandos locais e introduziu camadas da população no debate político, na medida em que essa parte da população passa a reivindicar a ação do Estado em políticas públicas aos mais pobres. O Blog do Alon traz uma declaração de uma senhora pernambucana que acho que diz muito sobre a maciça escolha por Lula no Nordeste:


“Sabe, deputado, nós aqui vamos votar no Lula por uma razão bem simples. Se ele ganhar, nossos filhos e nossos netos vão conseguir emprego e estudo aqui mesmo. Nós vamos poder reunir a família toda semana ou no máximo todo mês. Mas se o Lula perder só vai ter emprego mesmo é em São Paulo. E aí a gente só vai se ver no Natal, isso se as crianças tiverem dinheiro para comprar a passagem de ônibus”.


Este tipo de reação fez com que a esquerda fosse eleita em sete dos nove estados nordestinos.


A criação de oportunidades econômicas e o crescimento econômico nas regiões do nordeste são outros trunfos do governo atual. O pior é que são ações fáceis de serem feitas e nem um pouco caras. Por que não haviam sido feitas até então? Pela absoluta falta de interesse dos governantes anteriores. Não há dados oficiais, mas segundo o coordenador de contas regionais do IBGE Frederico Gonçalvez Cunha,  “as regiões Norte e Nordeste tiveram um desempenho melhor do que a média”, mas Cunha diz que não se pode creditar a mudança somente aos programas sociais, mas também a um aumento da industrialização em alguns Estados, como a Bahia.



Escrito por Lauro Mesquita às 16h22
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Herança maldita


Outro fator decisivo foi a “herança maldita” que FHC lega aos tucanos e a todos que dele se aproximam. Era só o presidente abrir a boca que Alckmin despencava. É só lembrar que o melhor momento do Chuchu em toda campanha foi quando o ex-presidente ficou em Portugal. Mesmo com toda a atenção que mídia dedica ao ex-príncipe dos sociólogos, ninguém convence o brasileiro que o governo dele foi desastroso e que a figura tão impecável aos olhos dos articulistas brasileiros é defenestrada por grande parte da população.


Não é sem menos que Serra decidiu pular do barco. Aparecer ao lado desse fardo pesado e enfeitado pode sujar a barra para as próximas eleições. Fora isso, o PSDB virou um balaio de gatos raivosos em que as lideranças são enganadas pela mídia. Têm a certeza, desde já, de que serão eleitas à presidência com um passe de mágica da família Civita. É bom lembra-los que, até dois anos atrás, Fernando Henrique (o defenestrado) ainda era considerado um candidato competitivo pelos periódicos paulistas.


Serra começa a perceber que o partido precisa se distanciar do discurso neoliberal e privatizante que marcou os dois mandatos do sociólogo mais engraçado do Brasil, assim como qualquer político que deseja ser eleito para qualquer cargo executivo. É bom lembrar que ele sempre teve posicionamento crítico em relação ao wannabe brazilian king Cardoso. Mas isso só o coloca à esquerda do seu partido e do PFL. Se insistir no discurso moralista e da utopia do possível do Gabeira (que, olhe só, virou modelo do panfleto Veja), vai virar a reedição do Geraldo Alckmin de sunga de crochê. Se abraçar o discurso da Heloísa Helena corre o risco de virar um Enéas sem bandeira vermelha nas costas.


A oposição tem de aprender que perdeu. E estar consciente de que a grande imprensa e a indústria de mídia esteve com eles o tempo todo. Mesmo assim a opinião pública foi maciçamente contrária à mensagem passada por tucanos e pefelistas. E não vai ser  mais um partido de esquerda com janotas incensados pela classe média orientada pelas revistas e programas de TV que vai mudar isso.

Longe de mim querer ajudar tucanos assumidos (do PSDB) e enrustidos (como a camarilha de Roberto Freire), mas como meu irmão, Tiago Mesquita escreveu, a oposição deve aprender que “foi a militância que ganhou essas eleições, não as cúpulas partidárias. Mais do que isso, esses partidos de esquerda feitos só por políticos, como o P-Sol e esse partido proposto pelo Serra não têm base social e nem terão. Tentam moldar uma alternativa que não tenha nenhum pouco de graxa nas mãos”. 


O meu amigo Fabiano Scodeler, colaborador do diretodepiei.zip.net, também fala muito bem sobre essa mania nacional das classes dirigentes (o que incluem políticos, artistas de TV bem-estabelecidos e ricos) de se posicionarem como ‘o novo’, 'o superior', sem arredarem o pé de suas convicções:“Esse novo partido (do Serra) é mais uma modalidade desse esporte tipicamente brasileiro de se mudar os nomes e continuar a mesma coisa, vide Arena-PDS-PPB-PP. Troca-se de legenda, de nome, mas não se apresenta nada que possa ser tratado como projeto nacional, nada de novo. Ou seja, não se muda porque pode ser melhor para o país, mas para poder se dar melhor em uma disputa eleitoreira, tão-somente para isso”.



Escrito por Lauro Mesquita às 16h19
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   Uma música que diz muito sobre a campanha



Madeira Que Cupim Não Rói, de Capiba

Madeira Que Cupim Não Rói
Composição: Capiba

Madeira do rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar,
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original.
Não vem pra fazer barulho,
Vem só dizer, e com satisfação:
'queiram ou não queiram os juízes,
O nosso bloco é de fato o campeão!'

E se aqui estamos cantando essa canção,
Viemos defender a nossa tradição,
E dizer bem alto que a injustiça dói,
Nós somos madeira de lei que cupim não rói

Sinceramente, ao escolher essa música pra campanha de Eduardo Campos no Pernambuco, o Ariano Suassuna não podia ser mais oportuno,não só em relação ao seu Estado, mas em relação ao que representa a reeleição do Lula no Segundo Turno. Não é atoa que é o maior dramaturgo brasileiro.



Escrito por Lauro Mesquita às 15h33
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   Democracia deve ser maior

Um amigo meu me enviou esse texto do professor Renato Janine Ribeiro. Acredito que ele coloca uma reflexão mais que interessante a respeito do turbulento momento do País, em razão da campanha eleitoral. Vale muito a pena ler. Confira abaixo (o texto também pode ser acessado no Adital):

DEMOCRACIA É MAIOR QUE QUALQUER UM DE NÓS

Renato Janine Ribeiro

Eleição não é luta do bem com o mal.


É comparação.

Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.



Escrito por Lauro Mesquita às 11h44
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Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social. Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio.


Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.


É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.


Discordo disso.


Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social.

No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores.


O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.


Agora vamos à questão ética


Escrito por Lauro Mesquita às 11h43
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No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.


Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.


Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos.


Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse.


Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades.

Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos. Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo, mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.


Renato Janine Ribeiro é Professor de Ética e Filosofia Política na USP, diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)



Escrito por Lauro Mesquita às 11h42
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   Tucaaaaaanibaaaall!

Cenas de violência no Rio e na Paraíba (como mostra foto abaixo) mostram que a coisa descambou pro que há mais de sinistro.

apareçam!Em um local onde qualquer cidadão que não ganha mais de 10 salários mínimos se sente figurante pobre de novela, uma cena de filme de terror vagabundo. O acontecido caberia bem em qualquer sessão do Cine Trash de Zé do Caixão: Tucaaaanibal ou Dondoca com fome de p(h)oder, esse mais pra Sexta Sexy, Cine Privê. Tudo começa na linda praia do Leblon, bossa-nova ao fundo, aquele vai e vem moreno, descansado típico de mais um daqueles capítulos de novela do Manoel Carlos onde nada acontece. Mas eis que aparecer com a a camiseta de um candidato a presidente acende o vulcão da fúria numa séria candidata a Renato Mendes ou Odette Roitmann.

E olha que não era camiseta molhada e nem briga de lutadoras amadoras de Jiu-Jitsu. A briga aconteceu pelo simples fato de que as pessoas de classe alta no Brasil não aceitam a reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Á violência custou um pedaço do dedo anelar da publicitária petista Danielle Corrêa Tristão, 38. A responsável pela bizarria violenta é a jornalista tucana, Ana Cristina Luzardo de Castro, 39. Tudo começou quando Danielle chegou em um bar chamado Leblon com o marido com uma camiseta escrita "Lula Sim". Junto com dois amigos, eles foram vaiados e hostilizados por causa da camiseta. Durante o tempo em que permaneceram lá, foram alvos de bolinhas de papel vindas de diversas partes e de aviõezinhos feitos com santinhos do candidato Geraldo Alckmin. 

Cansados com a situação, pagaram a conta, e Danielle foi ao banheiro. Ao sair de lá, duas mulheres tiraram o chapéu dela. Começou a confusão. Briga de mulher é coisa feia. Vendo a situação, o marido da petista puxou ela para fora, mas as tucanas vieram correndo atrás. Uma delas agarrou a publicitária pelos cabelos e acabou mordendo seu dedo. "Quando percebi, a mão já estava sangrando, e parte do dedo estava no chão", disse a publicitária.

Essa história marca um processo que começa a ficar sinistro. Um patrulhamento muito violento contra quem vota no Lula e não é do padrão que a mídia quer fazer o Brasil acreditar. Outro dia quebraram um vidro de uma menina que usava um adesivo do Lula na Avenida Paulista. Um amigo meu mesmo foi hostilizado próximo à Avenida Sumaré por que o carro tinha material de campanha do PT.

O
site Vermelho, ligado ao PC do B, reporta que, na madrugada de 16 de outubro, Tibério Modesto, de 21 anos, militante do PMDB, foi agredido a socos e pontapés, teve o aparelho celular roubado e o parabrisa do carro quebrado durante carreata do PSDB realizada na tarde de domingo (15), no bairro de Mangabeira. A esposa do Tibério, Fânela Peres, e sua filha, de apenas nove meses de idade, também foram agredidos. O bebê ficou com hematomas em um dos braços que, segundo ele, foram causados pelos participantes da carreata.A causa do vandalismo, de acordo com Tibério, foram adesivos do candidato José Maranhão e do presidente Lula que estavam afixados em seu carro.

Sinceramente, essas cenas de violência e vandalismo são fruto de uma campanha que descambou há muito tempo para o pior das classes dominantes no Brasil. O discurso em que a democracia e a convivência com diferenças, só é válida quando quem detém o dinheiro está mandando.

Acho que
a declaração do deputado Aldo Rebelo diz muito sobre isso: "Aqueles que se julgam portadores da modernidade, como os intelectuais tucanos, podem chegar a resultados desastrosos. Os que foram combater Canudos em nome da modernidade, achando que aqueles nordestinos do sertão da Bahia eram representantes da barbárie, do atraso, terminaram exterminando milhares de camponeses".

O
discurso do preconceito de classe e de raça e da cisão é um dos destaques dessa eleição. Talvez pela possibilidade de se manifestar anonimamente pela internet. Mas o problema é que esse discurso do preconceito tapa a discussão política e começa a se traduzir em bárbaros atos de violência.

Confira nesse
link a matéria sobre a porradaria carioca.

>>>Devo a idéia desse texto ao Arthur do transito.


Escrito por Lauro Mesquita às 17h41
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