Direto de PIEI
   Cantar, criar, escutar, participar


Na foto de Rodrigo Rosa, Minton interage com oficineiros e com eles cria música de improvisação


Começava tudo com risadas e respirações profundas. De acordo com o cantor inglês, Phil Minton, essa é a melhor maneira de movimentarmos nosso corpo e aquecermos nossa garganta para cantar. A técnica é célebre e tradicional. O sujeito a domina e faz com ela um lance bem diferente do que estamos acostumados a ver por aí. Ao longo da oficina, ele passa do aquecimento para o estímulo da criação com a voz, das formas mais variadas possíveis.

Cada um dos participantes deve criar fragmentos musicais gritando, de boca fechada, falando e de várias outras maneiras. No final, os todos já estão atentos ao que as outras pessoas estão fazendo. Está criado mais um coral de sons inesperados, com improvisos e criações sugeridas pelo britânico.

Dessa vez (no dia 8 de maio), as atividades aconteceram no salão do Conservatório Estadual de Pouso Alegre. Absurdamente lotado (umas 200 pessoas), o local reunia alunos da escola de música, estudantes de outras cidades e de outras disciplinas, gente que não tinha muito o que fazer, professores, músicos da região e até uma freira. Na chegada, fomos recebidos pela TV local e uma multidão muito curiosa pra saber o que aquele gringo ia fazer numa cidade onde a maior parte das coisas memoráveis que acontecem são ocasionadas pelo alto nível de embriaguez dos moradores.

Educação musical

O meu irmão organizou a turnê do Phil Minton aqui no Brasil. Desde o primeiro contato com o cantor, ainda em Londres, ele sempre pensou em incluir nossa cidade no roteiro. Pouso Alegre é carentona de coisas novas e o conservatório, nos últimos anos, tem produzido músicos de barzinho em série. Raramente, forma alguém ou alguma obra digna de nota (é bom ressaltar que sai gente boa de lá também, mas é uma minoria bem pequena). Na minha opinião, muito pela caretice inata à formação de instrumentistas no
Brasil. 


A maior parte do que se ensina nas escolas de música e conservatórios são padrões a se seguir: a escala x, a técnica y. Fora isso, a indústria do disco também lança modelos cada vez mais mela-cuecas do que é o bem tocar. Começa quando o menino ainda é novo e gosta de rock. Daí, tem de gostar daquele esquema de metal “bem tocado”, de uns metaleiros de dedinhos musculosos. Depois passa pra um jazz rock muito do chinfrim e vai indo numa progressão em que, no final, o sujeito admira o baterista da Sandy e do Júnior, o Léo Gandelman e o Kenny G, o guitarrista do Yahoo e outras baboseiras do tipo. Só gente que não compõe uma nota, músicos de estúdio, técnicos dos seus instrumentos, cuja maior qualidade é seguir um padrão. A glória maior é ser admirado pelos seus pares e conquistar espaço pra tocar em bandas de estrelas e lançar um DVD com algumas técnicas bem específicas.

Isso parece bem caricato se seguirmos essa versão prosaica do ex-metaleiro que vira instrumentista de hit parade de programa de auditório, mas o pior é que a história se repete em várias outras esferas musicais, dos instrumentistas de MPB, passando pelas bandas pop, os jazzistas do século XXI parados no tempo e concertistas que se limitam a seguir mecanicamente partituras caretas e sem nada de novo. A criação artística ou mesmo a interpretação fica bem pra trás.

 Por isso, foi admirável que o Conservatório topasse e apoiasse a vinda do Phil Minton. Afinal, em seus workshops, além de propor uma atividade pra lá de prazerosa, ele mostra que a necessidade de conhecer música e qualquer instrumento está profundamente ligada à criação. Uma composição que abandona o estabelecido e, no caso do cantor inglês, que usa e abusa de elementos que às vezes estão bem escondidos em todo o aparato do nosso corpo que cria voz.

O artista se estabeleceu na cena da música de improvisação livre. Onde a criação é sempre imediata (e bastante refletida, a partir de outros instrumentistas ou do público) e procura explorar formas musicais não-convencionais. Durante todos os workshops, que reuniu públicos dos mais variados ­– de militantes do movimento de moradia em São Paulo a estudantes de escolas pública no interior mineiro, passando por músicos, meninos de rua, atores, professores, desocupados –, o objetivo principal era criar e descobrir as possibilidades desse instrumento fenomenal que qualquer um pode tocar: a voz. Outra coisa interessante é que o músico inglês consegue colocar os participantes em uma sintonia muito interessante. Parece que todos são criadores de um coral múltiplo (algumas vezes caótico e confuso) e variado que tem um resultado coletivo e musical bastante forte. Os participantes são cantores e espectadores o tempo todo.


Escrito por Lauro Mesquita às 10h10
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Diálogo com o público

Em seus concertos, o diálogo com a platéia, com outros músicos e mesmo com o ambiente que o cerca é fundamental. Acredito que isso também se estende na música do Phil Minton de maneira geral. Não que durante a improvisação, os cantores fiquem jogando música pra galera naquele esquema pergunta e resposta, mas por que a ação do músico faz muito mais sentido em frente ao público e em pleno diálogo com ele.

Em sua apresentação no Auditório do Conservatório de Pouso Alegre, por exemplo, ele começou com uma respiração que rapidamente se transforma em um instrumento de sopro que emite notas agudas e que aos poucos vai se transformando em uma seqüência bastante musical dos sons da cidade e de coisas que ele parece ter compreendido um dia antes andando pelas ruas, vendo as pessoas falarem, os passarinhos e os barulhos de trânsito, de anda-anda e todas essas coisas comuns de qualquer aglomeração de 100 a 20 milhões de pessoas.

Muito mais que observar o ambiente e reproduzir em sons, a música que ele apresentou em todas suas performances também é de uma musicalidade e uma dinâmica absurda. Tudo vai sendo construído e envolvendo o público de uma maneira impressionante. Em um primeiro momento impressiona pela variedade de sons produzidos por Minton e pelo seu extremo virtuosismo técnico. Mas, para mim pelo menos, uma das coisas mais fortes de suas apresentações é a capacidade de criar a partir do inesperado, com um resultado absurdamente forte.

Na minha opinião, em Pouso Alegre a coisa se amplificou muito nesse sentido. Boa parte do público era de gente pouco habituada ao tipo de música do cantor inglês. Uma música que não se constitui de uma melodia linear ou de um ritmo contínuo. Mesmo assim, o a maior parte das pessoas não tirou os olhos um minuto de sua apresentação e, de certa maneira, se envolveu com a coisa. Achei massa que muito disso se deve ao cuidado com que o pessoal do Conservatório tratou a coisa. Com isso, a instituição mostrou o potencial que pode ter como uma geradora de coisas novas em uma cidade que pode contar com muita coisa. O concerto e o workshop, certamente, produziram uma inquietação de fazer o novo, de tentar entender as coisas com novos olhos. Desse negócio, pode sair muita coisa boa.



Escrito por Lauro Mesquita às 10h08
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